O que realmente faz alguém mudar depois de quebrar a confiança?

Hoje eu estava sentada escrevendo os roteiros da próxima semana para as minhas redes sociais e decidi que queria falar um pouco mais com quem quebrou a confiança. Com quem mentiu, traiu, escondeu alguma coisa ou teve algum comportamento dentro da relação do qual hoje se arrepende.
Enquanto escrevia, fiquei pensando que, ao contrário do que muita gente imagina, quando comecei a falar sobre reconstrução de confiança na internet, uma das minhas maiores vontades era justamente falar com essas pessoas.
É muito fácil encontrar conteúdos para quem foi traído ou está tentando lidar com a dor de ter a confiança quebrada. É um assunto muito falado por psicólogos, terapeutas e perfis de relacionamento (mesmo que eu nem sempre concorde com a forma como ele é abordado).
Mas quando se trata de quem traiu, mentiu ou escondeu alguma coisa, a conversa costuma ser bem diferente. Existe uma tendência muito grande de transformar o erro em uma característica permanente daquela pessoa. Ela não mentiu, ela é mentirosa. Ela não traiu, ela é uma pessoa que vai trair sempre. Como se, depois de determinado erro, não existisse muito o que fazer além de aceitar que aquilo faz parte de quem ela é.
E isso sempre me incomodou muito. Talvez porque eu também já tenha estado desse lado.
Eu já quebrei a confiança dentro do meu relacionamento e pude viver, na prática, um processo de mudança muito profundo. Foi fácil? Não. Mas eu sei o quanto uma pessoa pode mudar quando começa a entender os próprios padrões e realmente se dispõe a trabalhar neles.
E foi justamente pensando nisso que escrevi uma das frases que vou postar essa semana:
“Não basta querer ‘não errar mais’. Para mudar de verdade, você precisa entender o que te leva a agir daquela forma.”
Acho que existe uma ideia muito comum de que força de vontade deveria ser suficiente para mudar. Se alguém traiu, precisa querer não trair mais. Se mentiu, precisa decidir que agora vai falar a verdade. Se escondeu alguma coisa, precisa se comprometer a não esconder novamente.
E lógico, a vontade de mudar é importante. O problema é achar que ela, sozinha, vai dar conta de modificar um comportamento que provavelmente tem muito mais coisa por trás.
Eu percebi isso durante o meu próprio processo. Não adiantava apenas saber que determinadas atitudes minhas não eram legais e decidir que eu não queria mais agir daquela forma. Eu precisava entender por que, mesmo não querendo ser aquela pessoa, em determinados momentos eu ainda fazia determinadas escolhas.
Foi quando comecei a olhar para os meus comportamentos com mais curiosidade que algumas coisas começaram a fazer sentido. Em vez de ficar apenas no erro final, comecei a tentar entender o que vinha antes dele: o que eu estava buscando, quais necessidades estavam envolvidas, em quais situações determinados padrões apareciam com mais força e o que, em mim, ainda precisava ser trabalhado.
E esse entendimento muda bastante a forma como a gente tenta mudar.
Se eu percebo, por exemplo, que determinado comportamento meu está relacionado a uma necessidade muito grande de validação externa, agora eu tenho alguma coisa mais concreta para trabalhar. Posso começar a entender por que dependo tanto dessa validação e construir um valor próprio que não fique tão dependente do que recebo de outras pessoas.
Aos poucos, o caminho vai ficando mais claro. Não porque descobrir a origem de um comportamento faça ele desaparecer magicamente, mas porque agora você sabe melhor onde precisa mexer.
E acho que é justamente essa parte que falta em muitas das conversas que temos sobre erro e mudança dentro dos relacionamentos.
A gente fala muito sobre o que uma pessoa não deveria ter feito. Fala que trair é errado, que mentir é errado, que esconder é errado, que quem fez precisa amadurecer e mudar. E eu concordo. Quem errou precisa lidar com as consequências do que fez e assumir a responsabilidade por aquilo.
Só que existe uma parte dessa conversa que quase nunca aparece: como essa pessoa muda?
Porque para alguém que genuinamente se arrependeu e está tentando entender como não repetir aquilo, encontrar ajuda não é tão simples. Grande parte do conteúdo disponível está muito mais preocupada em dizer o que aquele erro significa sobre a pessoa do que em ajudá-la a entender o que precisa ser trabalhado a partir dele.
E para quem já está se julgando, se sentindo culpado e tentando descobrir por onde começar, isso pode acabar reforçando justamente a ideia de que não existe muito o que fazer. Que ela fez aquilo porque é assim e pronto.
Foi exatamente por isso que eu comecei a falar sobre reconstrução de confiança na internet…
Eu queria criar um espaço em que quem foi magoado pudesse aprender a reconstruir, claro. Mas também queria que quem magoou encontrasse alguma coisa além de “você fez isso porque é uma pessoa ruim e provavelmente vai fazer de novo.”
Um lugar em que fosse possível pensar algo do tipo: “Você errou, ok. Agora vamos entender o que te levou até esse erro e o que precisa mudar para que você não continue sendo a mesma pessoa que foi capaz de cometê-lo.”
Isso não diminui a responsabilidade jamais… inclusive, na minha visão, aumenta.
Porque é muito mais fácil prometer “eu nunca mais vou fazer isso” do que ter coragem de olhar para dentro e investigar o motivo de ter feito o que fez.
E é essa a reflexão que eu queria deixar hoje: se você errou e realmente quer mudar, não use o seu arrependimento apenas para prometer que nunca mais vai acontecer. Use também para ficar curioso sobre você.
Tente entender seus padrões, o que você estava buscando quando tomou determinadas decisões, em quais situações fica mais vulnerável a repetir certos comportamentos e o que ainda precisa ser construído em você para conseguir agir diferente.
A vontade de mudar importa muito, é ela justamente que faz alguém começar esse processo, mas ela não SUBSTITUI o processo.
Não basta querer não errar mais → é preciso começar a entender o que, em você, precisa mudar para que você consiga fazer diferente <3
